Publicado por: luizerbes | março 10, 2013

As mulheres em Erico

O tempo e o vento é uma obra monumental. Em parte, isso se deve à trama, que insere a ficção – as trajetórias das famílias Terra e Cambará – dentro do contexto histórico e cultural gaúcho. Dessa forma, Erico Verissmo narra em O Continente (de 1949), O Retrato (1953) e O Arquipélago (1962-63) uma história do Rio Grande do Sul diferente da ensinada nos livros escolares até então – e que permanece, em parte, ainda hoje –, desconstruindo mitos e centrando-se em quem fica, e não em quem vai lutar nos campos de batalha.

Além da trama, rica e magistralmente desenvolvida, Erico dá vida a personagens marcantes. O Capitão Rodrigo é um deles. Homem livre, guerreiro e mulherengo, vivendo um dia após o outro, tal como se não houvesse amanhã. De certa forma, mesmo sem ser de carne e osso como a gente, o Capitão Rodrigo permanece na mente das pessoas ainda hoje – e ganhará força, certamente, com o novo filme, ainda em produção.

Mas se Rodrigo é marcante, assim como tantos outros personagens masculinos, são as mulheres as verdadeiras heroínas da trilogia. O próprio autor deixou claro isso em suas memórias. Ana Terra, Bibiana e Maria Valéria zelam pelos rumos da família Terra-Cambará. Enquanto os homens vão guerrear, fazer compras (e se divertir) em Rio Pardo, são elas que ficam, cuidam dos filhos, esperam e resistem. É Ana Terra quem se entrega aos castelhanos para salvar o filho, é Bibiana quem conquista o Sobrado, é Maria Valéria quem governa o casarão.

Dessa forma, Erico constrói um romance em que esse lado feminino transparece. Essa força se faz presente no cerco ao Sobrado, em que a tensão entre Licurgo e Maria Valéria cresce, até resultar numa áspera discussão. Com todas as letras, Maria Valéria diz que não apenas os homens estão em conflitos. Elas também estão em guerra, e muito mais, por terem de aguentar sozinhas o tranco muitas vezes.

A trilogia traz mulheres determinadas. Os homens têm lá suas virtudes, mas parecem carregar mais defeitos (ou dá para justificar o que o Capitão Rodrigo e Rodrigo Cambará aprontaram?) do que virtudes. Em uma leitura cuidadosa de O tempo e o vento, essa força feminina se impõe.

Essencial para se conhecer um pouco da história do Rio Grande do Sul, é também uma homenagem às mulheres lutadoras, que superam obstáculos e vencem desafios. Parabéns a elas, neste 8 de março. E boa leitura!

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Texto publicado originalmente na Folha de Caxias.

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