Publicado por: luizerbes | junho 26, 2012

Pozenato: Livro e mercado

Texto do escritor José Clemente Pozenato, publicado na edição desta terça-feira (26/06/2012), trata da mercado editoral brasileiro. Do artigo, com o título “Livro e mercado”, extraio uma frase: “Questionados por que não se cria uma estratégia para reduzir pela metade o preço dos livros, (um editor) veio esta pérola como resposta: o leitor brasileiro gosta de livro para ser guardado como obra de arte, ele não compra livro barato.”

Segue o texto completo:

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Todas as vezes em que sou chamado a dar minha opinião sobre o problema do livro no Brasil, bato sempre na mesma tecla: a indústria do livro é a mais obsoleta do país, funcionando dentro da economia de mercado ainda no velho esquema da produção artesanal; para completar, também o comércio do livro permanece antiquado, perdendo até mesmo para o das mercearias de bairro, com seu caderno de fregueses. Em nenhum momento, mesmo em instâncias institucionais ligadas ao mundo editorial, e apesar de desafiar que alguém o fizesse, ninguém nunca contestou essas posições. Mesmo os envolvidos no negócio apenas baixam a cabeça e suspiram fundo, como diante de um mal sem remédio. O resultado é que temos um mercado disponível completamente às moscas.

Semana passada saiu em São Paulo a notícia de que duas empresas de pesquisa de mercado, uma da Alemanha e outra norte-americana, estão entrando no Brasil para descobrir por quais motivos não existe aqui mercado para o livro, por que no topo de vendas aparecem apenas a bíblia e os livros didáticos, por que a literatura brasileira não chega a 4% das vendas e por que o livro é em média duas vezes mais caro do que no resto do mundo. Isto é, por quais razões nossa indústria e nosso comércio do livro são tão obsoletos ou, para usar uma expressão menos cruel, por que motivos essa indústria e esse comércio ainda não se modernizaram.

Nas mesas-redondas em que participei desse tipo de discussão, ouvi os mais inefáveis argumentos para explicar o atraso. A culpa disso, dizem editores e livreiros, está no atraso do leitor e na pobreza da população. Questionados por que não se cria uma estratégia para reduzir pela metade o preço dos livros, veio esta pérola como resposta: o leitor brasileiro gosta de livro para ser guardado como obra de arte, ele não compra livro barato. Basta ouvir esse tipo de resposta e de explicação para ver onde está realmente o problema…

A notícia da chegada dessas empresas para diagnosticar os problemas do mercado do livro no Brasil veio acompanhada, como era de se esperar, do seguinte comentário cheio de pasmo: “Isso reflete o interesse que o mercado do livro no Brasil vem despertando no mundo”. Como se vê, parece não ser um negócio do tipo “vender geladeira para esquimós”. Se há quem queira investir nele, com experiência de atuação em mais de uma centena de países, é porque está aí uma oportunidade que nossa inércia não foi capaz de perceber. Começo a ter esperanças de que ainda vamos ser um país de leitores.

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