Publicado por: luizerbes | março 28, 2012

Do Viés Negativo: Sou brasileiro e já desisti

Segue um texto do blog Viés Negativo, atualizado por Cristiano Pitt e André Pelinser (nem sempre nesta ordem). Um Ctrl C + Ctrol V, que todos os estudantes conhecem, para ilustrar este blog.

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Sou brasileiro e já desisti

Todo o mundo reclama da segunda-feira, mas ruim mesmo, pelo menos para mim, é a noite de domingo. Porque pior que viver a segunda é esperar por ela, sofrer por antecipação, pensando na rotina que reaparece no horizonte e, ao mesmo tempo, em como fazer para acordar cedo no dia seguinte, sem um pingo de sono sequer, afinal todo ele foi gasto há cerca de doze horas e não há muito o que fazer a não ser esperar o tempo passar.

Por isso, nenhum momento seria mais inoportuno do que a noite de domingo para assistir, como ocorreu há uma dezena de dias, a uma reportagem como aquela exibida pelo “Fantástico”, a qual denunciou de maneira quase pornográfica o funcionamento de um esquema ilícito envolvendo fornecedores de materiais, mantimentos e equipamentos da área da saúde pública. Com o perdão pelo clichê, uma verdadeira máfia da corrupção.

Aliás, o termo “corrupção”, a meu ver, poderia ser banido do nosso vocabulário, porque seu uso dá a ela – a corrupção – um aspecto de impessoalidade, um ar neutro que, sabemos, não tem nada a ver com a vida real. Não estamos falando de uma doença que ataca aleatoriamente aqui e ali: falamos, sim, de pessoas que não hesitam diante da possibilidade de se locupletarem com o que é de todos e, portanto, não poderia ser de ninguém.

Daí que me parece que estamos diante de um problema insolúvel, uma vez que nosso discurso, tão inflamado quando se trata de atacar esta brasileiríssima entidade, não costuma resultar em nada que abale estruturalmente – ou mesmo que ameace – as organizações que a mantém em funcionamento – funcionários públicos, políticos de todos os níveis e empresários, muito embora nossa grande mídia tenha o hábito de atacar apenas e tão somente os dois primeiros representantes, como se eles embolsassem um dinheiro caído do céu ou brotado do chão.

O fato é que preparar-se para a semana deglutindo matérias jornalísticas deste jaez é completamente desanimador, por dois motivos principais. O primeiro, sobre o qual não preciso me deter, de tanto que já se falou e escreveu a respeito, é que todo e qualquer superfaturamento em licitações representa um deboche para com os tributos recolhidos de maneira tão pródiga em nosso país. Significa que o nosso IPVA vai aumentar, que a tabela do Imposto de Renda não poderá ser corrigida, que os aposentados serão reajustados abaixo da inflação até a morte, que vamos para sempre pagar pedágio, segurança particular e plano de saúde, ao contrário do piso salarial dos professores, que jamais será pago.

O segundo motivo, que de fato me parece importante, tem a ver com a monstruosidade das cifras envolvidas nessas negociatas: são propinas de 10 a 20 por cento em negócios que costumam ser de algumas centenas de milhares de reais. Em uma simples tramoia como a denunciada pela reportagem da Globo, um funcionário (já muito bem pago) do serviço público pode auferir, no mínimo, o dobro da renda que um educador médio amealha após um ano inteiro de trabalho. E uma empresa pode amealhar lucros tantos e tão fáceis que, diante deles, os bancos privados correm o risco de parecer uma quitanda de bairro.

O que quero dizer tem a ver com isso, mas é outra coisa.

Porque o que realmente me incomoda é saber que nós, brasileiros, ao constatarmos essas cifras monstruosas – e ilícitas – não sentimos vontade de tomar as ruas em protesto, nem ganas de reivindicar, de modo consistente, uma mudança geral nas formas como se utiliza e se pune a má utilização do dinheiro público, muito menos de exorcizar uma cultura generalizada que valoriza a esperteza do favorecimento individual em detrimento da coisa pública, há tantas e tantas décadas.

O que mais preocupa, portanto, não é o fato de tomar conhecimento de uma roubalheira, que, no fundo, todo o mundo sabe que existe em todas as esferas de todas as administrações de todos os partidos políticos do Brasil: é, sim, saber que nós, ao sermos afrontados por denúncias como essa, temos uma tendência – irreversível? – não de repudiar, mas de sentir inveja do corrupto, consciente ou inconscientemente. De estar no lugar dele. De ter a oportunidade que ele tem. Como se isso fosse o que nos definisse como povo.

Por isso o título deste pequeno texto.

Sou brasileiro, e já desisti. Faz tempo.

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