Publicado por: luizerbes | fevereiro 13, 2011

A Casa Branca, sob o ponto de vista da comunicação

Durante os protestos no Egito, a Casa Branca utilizou recursos da comunicação para conseguir manter uma imagem positiva do país perante o público – interno e externo. Adotou o discurso do diálogo, evitou qualquer confronto aberto contra o governo de Hosni Mubarak, o exército e até os manifestantes; falou muito em uma “transição ordeira” para a democracia, enquanto buscava, pela via diplomática, uma saída que representasse uma mudança apenas superficial.

Nesta estratégia, a primeira vítima foi Hillary Clinton. Depois de aparecer no início, dando algumas declarações, a secretária de Estado sumiu da cena. Barack Obama assumiu o front. Foi o presidente quem passou a dar declarações sobre o Egito, enquanto Hillary silenciou – no Google News em português, as últimas declarações dela datam de 6 de fevereiro – há uma semana, portanto.

Isso se explica: em momentos de crise, o interlocutor é parte da mensagem. Hillary, vista no mundo árabe como implacável defensora de Israel e favorável à ofensiva militar contra o Iraqui, não era a pessoa ideal para comandar o processo. Além disso, ela jamais foi dura com Mubarak, assim como a presidência do seu marido, Bill Clinton, foi conivente com a ditadura egípcia nos anos 90.

Obama, pelo contrário, tem uma imagem melhor entre os árabes, apesar da desilusão com a política americana para a região – que pouco mudou em seu governo. E os protestos, de certa voz, estavam em sintonia com aquele discurso que ele fez no Egito ao ser eleito presidente dos Estados Unidos, quando falou em aproximação, pontes e um mundo mais justo, embora nada tivesse feito nesse sentido até então.

Mesmo assim, os Estados Unidos saem com a imagem arranhada no episódio. Por que? Porque a mensagem é parte essencial do processo de comunicação. Escolher o interlocutor certo é parte importante, mas a mensagem, no final das contas, tem um peso maior. E os Estados Unidos demoravam demais para se distanciar de Mubarak e seus capangas; eles não perderam a influência sobre o Exército, mas desconfio que o povo egípcio vê os EUA com um dos obstáculos no caminho da democracia.

***

Aliás, o discurso de defesa da democracia dos EUA só se sustenta pelo apoio incondicional da grande mídia mundial. Se você catalogar as ditaduras, vai encontrar várias sendo tratadas como grandes amigas de Washington – destas, duas sucumbiram (Tunísia e Egito), e outras (como Argélia e Iêmen) estão reprimindo os protestos (sobre as quais a Casa Branca cala).

Além do mais, um olhar sobre a história da América do Latina mostra que quase todos os países da região tiveram ditaduras financiadas ou apoiadas por Washington.

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Responses

  1. Muito bom, Luiz! Sobretudo os dois últimos parágrafos.


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