O sono dos genocidas

Julho 30, 2008

É uma pergunta que me acompanha: como essa gente consegue dormir?

Quando menciono “essa gente”, me refiro a pessoas como Radovan Karadzic, o sérvio acusado pelo massacre de Srebrenica, no Bósnia, na qual cerca de 8 mil pessoas foram mortas diariamente. Karadzic não é o único, há outros nesta lista bastante extensa, mas é um nome recorrente. Além de estar envolvido nesse massacre, o general sérvio teve participação direta no cerco a Sarajevo, também nos anos 90.

Karadzic esteve diretamente ligado a esses atos. Foi protagonista. Ele estava no comando, deu as ordens que acabaram com a vida de milhares de pessoas.

Mesmo assim, a imagem que esse senhor passa é de alguém que tem noites de sono tranqüilas. Sua vida parece a de alguém em paz consigo, sem remorços, sem grandes culpas. Há inúmeros indícios de que ele levou uma vida bem tranqüila nesses últimos anos, como uma pessoa comum, trabalhando como médico e escrevendo poesias. Não há um sinal sequer que os crimes cometidos no passado o tenham atormentado, causando-lhe algum sofrimento.

É provável que, não fosse preso, Karadzic caminharia rumo a um final parecido a de vários nazistas. Hoje já não são tantos assim por aí, até porque a Segunda Guerra Mundial terminou a 63 anos – não há mais generais a procurar, apenas soldados, cabos, tenentes, coadjuvantes naquela guerra. Mas lembro que, ali pelos anos 80 e 90, volta e meia saía a notícia da morte de um nazista graúdo. Sempre bem velhinho, depois de anos levando uma vida aparentemente tranqüila em algum recanto da América do Sul. Nenhum deles me pareceu atormentado pelos horrores cometidos no passado.

Como essa gente consegue dormir de forma tão tranqüila? Será que eles julgam ter realizado algun bem à humanidade? Ou não será que, por suas convicções, eles não cometeram essas atrocidades contra pessoas, mas contra inimigos diabólicos sem rostos.

Lembro que, durante a Guerra Fria, era comum cada lado pintar o outro como o diabo, embora, em seu dia-a-dia, os moradores dos Estados Unidos e da Rússia, mesmo no ápice da rivalidade, realizassem coisas semelhantes: ambos trabalhavam, estudavam, realizavam compras, tinham problemas com vizinhos, festejavam aniversários, assistiam a televisão, ouviam música, saíam a passear pelo parque, tomavam bebidas alcoólicas, namoravam, casavam, tinham filhos, festejavam seus heróis, choravam por seus mortos, tinham sonhos, temores, etc..

Mas os genocidas do século 20, desconfio, jamais viram o mundo dessa forma. O adversário nunca foi adversário, sempre foi inimigo, alguém que merece ser morto, aniquilado. O outro sempre foi alguém distante e desconhecido, alguém diferente, alguém não-gente.

Por isso, desconfio, pessoas como Karadzic, generais nazistas, os senhores da guerra que ocupam a presidência de países poderosos jamais perderam noites de sono.

E vão continuar a dormir livres de pesadelos.