Thomas L. Friedman é um badalado colunista do New York Times, autor de livros como o “Mundo é Plano”. Seus textos saem em várias partes do mundo – aqui no Brasil, é possível ler seus textos traduzidos no UOL. É da turma de ponta do NY Times.
Há 12 dias, ele escreveu o artigo “Tão popular e sem estrutura moral“, numa referência à Rússia e à China. No texto, ele ataca os dois países por não apoiarem ações mais duras contra o regime de Mugabe, no Zimbábue. No final, após admitir a perda de popularidade dos Estados Unidos no planeta, ele afirma:
“Não somos perfeitos, mas os Estados Unidos ainda têm alguma estrutura moral. Há farsas que nós não toleraremos. A votação da ONU sobre o Zimbábue demonstra que isto não ocorre quando se trata desses países “populares” – chamados Rússia, China ou África do Sul – que não vêem problema em ficarem do lado de um homem que está pulverizando o seu próprio povo.”
Cabe, contudo, um questionamento a Thomas Friedman: qual é a estrutura moral dos Estados Unidos?
Não vou defender Rússia, China ou África do Sul – até porque a posição desses países no episódio merece críticas e é perfeitamente condenável -, mas a falta de moral de um país não dá estrutura moral a outro país. O pecado de um não não significa que o outro não seja pecador.
Friedman certamente filtra as informações que recebe e seleciona as que lhe interessam. Talvez se ele pessasse Guantánamo ou Abu Ghraib ele não falaria em estrutura moral. E muito menos se ele fosse ler essa matéria publicada pela jornal espanhol El País, com o título “CIA cria um limbo para prisioneiros no mar“. O texto relata a existência de barcos em alto mar com prisioneiros, ou prisões flutuantes, onde os presos não têm direitos, sequer existem.
Nessas prisões flutuantes, os presos são submetidos a interrogatórios e a práticas de tortura, de acordo com o texto. Não há a quem recorrer, diferentemente de Guantánamo, onde a Cruz Vermelha tem algum acesso. Ali é o mundo do terror do combate ao terror pelo país que Friedman considera ter “estrutura moral”.