As campanhas repetem exaustivamente: “se beber, não dirija” e “se dirigir, não beba”. É bem legal, é bonito realizar campanhas educativas.
Pena que o alvo esteja desfocado. O álcool de fato causa acidentes, mas se ignora a participação dele nos acidentes que matam milhares de brasileiros a cada ano. Não temos estatísticas confiáveis, e talvez isso seja bastante conveniente. E nos acidentes em que o álcool está envolvido, ele é de fato o grande e principal culpado? Ou, o cara no volante não é ruim na direção quando está sóbrio também? Ou não foi vítima das circunstâncias?
Se queremos reduzir o número de acidentes e de vítimas, precisamos ver exatamente as causas. Há outros fatores importantes a considerar. Vejamos:
1) O estado de nossas estradas e pontos de acesso que podem ser definidos como criminosos. Moro em Caxias do Sul, onde temos um belo exemplo: o acesso da RS-122 (Caxias a Flores da Cunha) à Rota do Sul. Diariamente, por conta de uma estrutura capenga e criminosa, atravesso a Rota do Sul quatro vezes. Sempre encaro filas, trânsito intenso. Não raramente, há filas de caminhões. Desnecessário dizer que os acidentes são comuns. O último ocorreu na sexta-feira, entre um caminhão e um carro passeio. Vários feridos. Como ninguém estava sob o efeito do álcool, teve espaço secundário na mídia. Tivesse algum dos motoristas tomado uma longneck, o assunto teria virado manchete.
2) O alto número de caminhões e carros em estradas projetadas e construídas há 20, 30 ou até 40 anos. Outro exemplo: só nos últimos sete dias, 11 pessoas morreram na BR-386, no Norte do Rio Grande do Sul. Enquanto isso, paga-se imposto sobre combustível, IPVA, pedágio, mas nada de investimentos para modernizar a estrutura viária do país.
3) O comportamento irresponsável de motoristas. Tem gente, que quando está sendo ultrapassada, parece querer apostar corrida, acelerando o quanto pode; tem gente ultrapassando em local proibido; tem gente andando em trecho de risco, como entroncamentos e pontos de acesso complicados (como o citado acima, no acesso à rodovia entre Caxias e Flores da Cunha com a Rota do Sul) em alta velocidade; tem caminhoneiro dirigindo 12 ou 15 horas por dia; tem motorista que só anda a 80 km/h onde há pardal; tem muito louco no volante. Pior, essa gente não precisa de álcool para dirigir do que jeito que dirige.
4) O estado precário de muitos veículos. É inegável que muitos acidentes ocorrem poque carros, caminhões e ônibus muitas vezes não passam pelas revisões necessárias, ficam sem freio, etc…
5) Além disso, é preciso distinguir os acidentes urbanos dos acidentes em rodovias. As circusntâncias são diferentes, as causas também. Nas cidades, o álcool pode ampliar o risco, em especial no caso de motoristas irresponsáveis.
A solução correta depende de um diagnóstico preciso.