Nas discussões que proliferam pela Internet, há muito lixo. Sobre o fim da obrigatoriedade do diploma para excercer a profissão de jornalista, há um grande volume de bobagens sendo usadas como argumento para bater no diploma. Fica a dúvida: é para esse rumo que caminha o jornalismo brasileiro, já tão sofrível?
No blog do Nassif, encontrei um comentário que questionava: se escrevo um blog, ou coloco um comentário num blog, tenho que ter o diploma de jornalista? O cara, é óbvio, não assina o nome por incapacidade de de assumir a bobagem que diz. Quantos blogs existiam até duas semanas? Havia alguma contestação de jornalistas a esses blogs? E quantas cartas são publicadas diariamente nos jornais, editadas com prazer pelos jornalistas?
Há alguns pontos que os defensores do fim do diploma de jornalista vem usando como argumento, alguns nada éticos:
1) que não é preciso formação específica para jornalismo e outras atividades na área de humanas; encontrei até alguém chamando toda essa área de conhecimento de “perfurmaria”, como se não tivesse importância. Quem pensa que jornalismo é brincadeira deveria tentar produzir um jornal, com objetividade, critérios balanceados e ética.
2) que manifestar opinião – uma das características dos blogs – é jornalismo. Na verdade, emitir a opinião é privilégio de poucos e, atualmente, os jornais estão repletos de artigos assinados por advogados, políticos, médicos, sociólogos, etc.. O produto básico do jornalismo é a informação, que precisa ser buscada com critérios eticos.
3) que o problema da qualidade da mídia brasileira é fruto da obrigatoriedade do diploma. É uma falácia. A qualidade dos jornais, dos programas de rádios e TV está ligada a falta de investimentos da mídia, de priorizar focas (jornalistas recém saídos da faculdade) para pagar salários mais baixos, de exigir que o repórter apure e escreva várias matérias diariamente (o que dificulta a checagem e favorece a publicação de releases).
4) que o diploma fere a liberdade de expressão defendida pela Constistuição Federal. Há várias coisas que ferem a Constituição, e aqui não está o diploma, que não preocupam o STF. Por exemplo: a Constituição, no artigo 220, afirma que os meios de comunicação não podem ser objeto de monopólio e oligopólio. Alguém tem dúvidas de que temos monopólio na comunicação brasileira? Gilmar Mendes e a turma do STF tem alguma preocupação com isso? Ou fazem de conta que o problema não existe?
5) que as faculdades de comunicação não ensinam nada. Se fosse assim, os jornais não contratariam tantos focas que supostamente não sabem nada para tocar o seu produto principal (a notícia). As faculdades de comunicação têm problemas, mas eles não são exclusivos; alguém pode citar uma faculdade de Medicina sem problemas ou imune a críticas? Além disso, é preciso avisar as pessoas que, assim como todas as outras profissões, o exercício do jornalismo é um aprendizado constante, que começa na faculdade mas não termina no diploma. Isso vale para médicos, engenheiros, arquitetos, dentistas, administradores, etc..
Além desses cinco pontos, é preciso tocar num outro detalhe: a falta de legislação na área de comunicação. Deixamos um ambiente de lei específicas para um outro, no qual não há apenas a Constituição (muito genérica) e o Código Civil. Isso representa um atraso. Se a lei está defasada, faz se uma nova lei, que se adapte ao atual cenário. Não se acaba simplesmente com a legislação. A caminhada é para frente, não para trás. Essa “terra de ninguém” favorece a quem? Ao leitor? Ao jornalista? Ou aos grandes grupos de comunicação?